Parque Serra da Capivara. A HISTÓRIA DE UMA GUERREIRA.

É impressionante a capacidade do governo, em todas as esferas, de  dificultar, obstruir e destruir ações, projetos e iniciativas que não servem aos seus interesses. Empreender qualquer projeto, principalmente, de cunho cultural e educacional neste país é tarefa para gigantes destemidos dispostos a suportar e vencer as pressões de interesses pessoais, políticos e econômicos.

Niède Guidon, arqueóloga brasileira, é uma destas gigantes que merece a nossa reverência e admiração. Desde 1969 dedica seus dias a salvaguardar um dos maiores e mais belos patrimônio naturais da humanidade, o Parque Serra da Capivara, situada no município de São Raimundo Nonato, Piauí, que integra a Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

Só visitando o Parque para entender e se impressionar com tudo que foi construído, infra-estrutura, estradas, acessos, formação e treinamento de mão de obra, guias, museu, exposicões, universidade, laboratórios. Uma luta diária pela busca de recursos que garantam a manutenção e continuidade do projeto que sofre com a falta de apoio e divulgação, mas tem o reconhecimento internacional da pesquisa e achados históricos cientificamente documentados, arquivados e preservados que estão à disposição de pesquisadores, historiadores e estudantes do mundo inteiro.

Uma mulher forte e determinada que acredita na educação. Educar significa libertar. Ouvir relatos de moradores locais e de pessoas que convivem e trabalham com ela dá para sentir a sua força, o quanto é valorizada por muitos e também odiada por poucos. Destemida venceu pré-conceitos e comprou muitas brigas por acreditar em seus propósitos. Ela mobilizou recursos e motivou a criação de outras ações que trouxessem esperança de um futuro melhor, renda e sustentabilidade para a comunidade, mostrando que com tecnologia, trabalho e dedicação é possível mudar uma realidade pobre, carente e dependente como a da população de São Raimundo Nonato, um extrato de tantas outras pelo Brasil afora que sofrem pelas amarras do protecionismo e pela falta de vontade política.

Uma das iniciativas foi a oficina de cerâmica artesanal, hoje transferida para a iniciativa privada, mas que emprega 30 artesãos locais e vende para todo o Brasil. Outra a Flora Mel, cooperativa para extração da forte produção de mel da região coberta por longas extensões de Marmeleiros e flores nativas. E ainda, sua presença e trabalhos com o parque contribuíram  para a instalação de uma universidade federal na cidade com cursos de antropologia, arqueologia e preservação Patrimonial, ciências da natureza, química e geografia.

E se esta mulher com sua fantástica e competente equipe fizeram tanto, como aceitar que para chegar a São Raimundo Nonato tenhamos que enfrentar 40km de estrada de chão em péssimas condições! Um trecho dentro do estado da Bahia entre Remanso e Casa Nova. Que depois de tanta esforço, contatos e espera tenha sido construído um aeroporto na cidade de São Raimundo Nonato que facilitaria significativamente o fluxo de turistas esteja agora, um ano depois de sua inauguração, jogado as traças!

Apesar dos muitos quilômetros percorridos para chegar até lá, valeu cada cada passo da visita. São mais de 1000 sítios arqueológicos catalogados nos 400km de trilhas dentro parque que conta com 130.000ha de área preservada que serve a moradia para muitas espécie de animais como o macaco prego, onça pintada, onça parda, onça preta, tamanduá bandeira, tatus, mocó, aves, répteis e outras especies endêmicas. Os sítios guardam relíquias da nossa pré-historia. Gravuras e pinturas rupestres pré-historicas datadas entre 12.000 e 15.000 anos impressas em formações rochosas e arenitos imensos, com mais de 100metros de altura que nos mostram em sua estrutura a passagem dos anos e mudanças climáticas.

Impossível conhecer tudo, são inúmeras trilhas que nos levam as tocas e sítios. É preciso levantar cedo e caminhar muito. Na mochila água, lanche e a máquina fotográfica para registar cenários quase irreais de uma paisagem exuberante, cânions, cavernas misteriosas e tocas onde viveram humanos pré-historicos, índios e caboclos que trabalharam na extração da maniçoba no início do século XX (látex para produção de borracha). Passo a passo, em silêncio, observar a vegetação característica do cerrado, os cactos, os seixos que se desprendem e formam um tapete colorido onde um dia foi o fundo mar.

Não espere muito de São Raimundo Nonato. Cidade pequena, carente de hotelaria e restaurantes para atender melhor o turista e que precisa urgente organizar o trânsito, melhorar a limpeza e a ordem. Mas apesar disso tem uma população cordial e que vem percebendo o quanto pode crescer e melhorar junto com o Parque. Deixamos nosso agradecimento aos guias que nos conduziram nestes felizes dias, ao falante e divertido Carlos Gadelha e a querida Cida e, em especial, a fantástica e inspiradora Dra. Niède Guidon que gentilmente nos recebeu e realizou o desejo de nosso filho de conhece-la. Seu legado, pelo menos por nós, não será esquecido. Sua energia nos motiva a perseverar em nossos projetos de preservação ambiental e seu nome marcará um caminho na Reserva Eckart. Gratidão imensa por sua existência!

É nosso dever exigir dos governos que façam a sua parte: estrada, aeroporto e recursos. O Parque não pode fechar as suas portas! Não apenas pessoas perderão seus empregos, todos perderemos a chance de conhecer e aprender sobre nós mesmos. É nosso desejo após viver esta experiência, divulgar, compartilhar e convidar a todos que façam as malas e partam para a Serra da Capivara que até o final de 2019 vai contar com mais um atrativo, além do Museu do Homem Americano, que expõe os resultados das pesquisas realizadas no parque, trazendo as descobertas relacionadas à origem do homem e ao povoamento das Américas, o novíssimo e tecnológico Museu da Natureza!

Boa viagem!

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Com o carinho dos Autores:

Prof. Paulo Ferreira, é Presidente do Instituto Eckart, Ph.D. em GESTION Y COMERCIALIZACIÓN INTERNACIONAL DE LA EMPRESA pela Universidad de León/ Espanha, consultor de empresas em estratégia e comportamento humano, neurocientista e pesquisador na área de Neurociência Cognitiva Comportamental.

Angelita Walter, é Diretora da Reserva Eckart, pós-graduada em Gestão de Pessoas, Estratégias e Negócios, Gestora do Projeto Transformação Solidária, Eco-especialista em Gestão baseada nos princípios da Permacultura.

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