ARTIGO DE GUSTAVO ARNS E ALINE CASTRO: EDUCAÇÃO PROMOTORA DO FLORESCIMENTO.

Sabemos que a raiz de muitos dos problemas que enfrentamos está na educação. Muito se discute, pouco se faz e menos ainda se pensa sobre o modelo educacional. Fato é que ao crescer numa organização ou ao ingressar em uma escola de negócios, o indivíduo experimenta uma contradição: a cobrança de ser proativo, sendo que foi educado a calar e a obedecer.

O modelo educacional da maioria das escolas segue o mesmo desde a revolução industrial, quando sua única função era preparar a mão de obra para as fábricas. As cobranças se referiam a chegar no horário, pedir permissão para ir ao banheiro, levantar a mão para falar e só se pronunciar se tivesse algo muito pertinente a dizer. Em casa, muitos de nós vivenciamos uma realidade semelhante, sem a possibilidade de argumentar diante da autoridade.

De modo geral, seguimos treinando nossas crianças, desde a mais tenra idade, a serem boas técnicas e se adaptarem ao “mercado de trabalho”. Como se esse fosse seu único destino. Essa padronização do pensamento leva as escolas a afogarem todo e qualquer talento que não sirva para uma futura pretensa carreira bem-sucedida. Hierarquizamos as disciplinas, tirando da arte, por exemplo, toda sua importância.

Aprendemos, desde cedo, a competir e muito pouco a colaborar ou cooperar. A esteira acadêmica nos leva até o doutorado científico sem nunca tratar do gerenciamento emocional. Seguimos analfabetos de nós mesmos. Não aprendemos a olhar para dentro, a sermos humanos. E dá trabalho ser humano, dá trabalho sermos nós mesmos. Porque é preciso sair do trilho e iniciar a própria trilha.

Para o sábio indiano Satish Kumar, a educação moderna promove em primeiro lugar a informação. De forma secundária, o conhecimento; e renega totalmente a experiência.

Nossa sociedade acredita que o aluno seja um vaso a ser preenchido pelo professor com informação. Quando na verdade a palavra educação, que vem do latim educare, significa exprimir o que já está lá, desfraldar o que está dormente, tornar explícito o que é implícito.

Um aluno é como uma semente. A semente já contém a árvore. O trabalho do educador deveria ser o de preparar o terreno para que a árvore possa se desenvolver e, então, produzir flores, frutos, sombra, oxigênio, sustentar a vida cumprindo seu propósito.

 

Assim deveria ser a educação: promotora do florescimento de talentos à vida e à humanidade e não intermediadora de interesses próprios e simplistas, como o de “qualificar” mão de obra. Educação é um processo de autodescobrimento e autodesenvolvimento. A realização acontece quando colocamos esses talentos inatos, desenvolvidos por meio do estímulo devido, a serviço do outro e de todo o mundo.

Satish acrescenta: “no conforto da sala de aula, podemos obter informação, no luxo das bibliotecas podemos obter conhecimento, mas experiência só pode ser obtida quando estamos lá fora, enfrentando as tempestades da vida, no rude terreno da natureza”. Mas se somos criados para obedecer, como dar esse passo de coragem?

Estamos num momento importantíssimo de mudança. E precisamos colocar no centro de nossa atenção a educação. Como queremos formar nossas crianças, que tipo de educação queremos oferecer? Conhecimento técnico e científico são necessários e importantes, mas não podem bastar no sistema. Temos que pensar em uma educação de forma integral, que considere a amplitude e a complexidade humanas. Que abra as portas para o processo criativo, para a autorreflexão e promova a reconexão. Começando pelo ensino emocional.

Se pensarmos que os conflitos externos refletem nossos conflitos interiores, ao voltarmos o olhar para uma educação de essência, que nos encoraje a ser o que somos, certamente resolveremos a raiz dos problemas éticos que tomam conta da politica, do mercado financeiro, das organizações… e teremos empresas mais humanas, ambientes de trabalho mais saudáveis e uma sociedade mais realizada e feliz.

 

*Gustavo Arns é presidente da Escola Brasileira de Ciências Holísticas, idealizador do Congresso de Felicidade e Professor do ISAE do GBA da Felicidade – Transformando pessoas e organizações.

Aline Castro é facilitadora de travessias, trabalha com o desenvolvimento da confiança das pessoas nelas mesmas, nos outros e naquilo que comunicam. Professora da FGV e do GBA de Felicidade do ISAE, além de palestrante, coach, mentora e viajante.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *